Alerta ao setor: golpe do cartão clonado mira lojas náuticas em Santa Catarina

Na tarde de segunda-feira, 14 de setembro, três homens chegaram em dois veículos a uma loja de equipamentos náuticos no centro de Itajaí para retirar um motor de popa de R$ 9.300 comprado pela internet. A equipe da loja, a Catarina Náutica, associada da ACATMAR, percebeu que as etapas de confirmação do pagamento não tinham sido concluídas e que, mesmo assim, o trio apareceu para levar o produto. Acionou o botão de pânico e chamou a Polícia Militar. Os três fugiram antes da chegada da guarnição.
A loja entrou em contato com a titular do cartão usado na compra. Ela estava no exterior com o marido e confirmou que não havia feito a compra. Um boletim de ocorrência foi registrado na Polícia Militar, que fez buscas e não localizou os suspeitos. Segundo a corporação informou à loja, há registros de tentativas semelhantes contra estabelecimentos do setor náutico, inclusive em Balneário Camboriú.
"Foi um dia muito tenso, com sensação de insegurança. Os três estavam de boné e de cabeça baixa. Queriam o produto rápido", relatou Roberto, da Catarina Náutica, aos demais associados da ACATMAR.
O que salvou a loja foi o procedimento
O caso não terminou em prejuízo por um motivo simples: a empresa tem uma regra e não abriu exceção. As compras precisam ser feitas pelo site e passar por todas as etapas de autorização da operadora de pagamento, e a loja não envia link de pagamento a clientes. Enquanto a confirmação não chega, o produto não sai.
É exatamente esse o ponto que a ACATMAR quer reforçar com toda a rede de lojas, estaleiros, marinas e prestadores de serviço do setor. A fraude com cartão clonado não é combatida no momento da entrega, e sim na política de venda da empresa. Quem tem regra escrita, e a cumpre mesmo sob pressão, não perde o produto.
Os sinais de alerta
Pelo relato do associado e pelo padrão que vem sendo observado no setor, alguns sinais merecem atenção redobrada no balcão:
Pressa incomum para retirar a mercadoria, principalmente em compras feitas pela internet minutos ou horas antes.
Comprador que aparece para retirar, mas não é o titular do cartão, e se apresenta como representante, motorista ou funcionário do dono do barco.
Afirmação de que o pagamento "já foi feito" sem que a operadora tenha confirmado a transação.
Ligações feitas na frente do vendedor, como se fossem para o proprietário da embarcação, para dar credibilidade à retirada.
Interesse em itens de alta liquidez e fácil revenda, como motores de popa, eletrônica embarcada e tinta antiincrustante.
Volume fora do padrão de consumo, como uma quantidade de galões de tinta muito acima do necessário para uma única embarcação.
Resistência em apresentar documento ou em aguardar a conferência.
Veículo parado na porta, com outra pessoa ao volante, esperando a saída rápida.
O procedimento que a ACATMAR recomenda
Liberar o produto apenas após a confirmação definitiva da operadora ou do intermediador de pagamento, sem exceção para cliente apressado.
Não enviar link de pagamento por mensagem e concentrar as vendas online no site da empresa.
Conferir documento de quem retira e registrar a titularidade do meio de pagamento.
Em compra de valor alto feita por terceiros, confirmar com o titular por um canal próprio, e não pelo telefone que o comprador oferece.
Manter câmeras em funcionamento, botão de pânico acessível e a equipe orientada a não enfrentar ninguém.
Registrar boletim de ocorrência mesmo quando a tentativa não se concretiza, porque é o registro que conecta os casos e permite que a polícia identifique o padrão.
Avisar a ACATMAR e a rede de lojistas, para que o alerta circule rápido entre as empresas do setor.
O outro lado do problema: quem compra
Produto obtido por fraude não fica parado. Ele costuma ser oferecido logo depois, a preço abaixo do mercado, para marinas, marinheiros, prestadores de serviço e proprietários. É aí que o problema deixa de ser só do lojista e passa a ser de todo o setor.
Quem adquire mercadoria sabendo, ou devendo saber, que ela tem origem criminosa, responde por receptação, prevista no artigo 180 do Código Penal. E há ainda o risco técnico, que no mar não é detalhe: material sem nota e sem rastreabilidade não tem garantia, não tem procedência comprovada e pode ter sido armazenado de qualquer jeito. Em tinta antiincrustante, em equipamento de segurança e em eletrônica embarcada, isso se paga caro depois.
A recomendação da ACATMAR a quem compra é simples: exigir nota fiscal, comprar de revenda autorizada e desconfiar de oferta muito abaixo do preço praticado, principalmente quando vem por mensagem, sem loja e sem garantia.
A posição da ACATMAR
"Esse caso terminou bem porque o lojista tinha procedimento e teve sangue frio. Mas a lição vale para todo mundo: o setor náutico virou alvo, e o combate começa dentro da empresa, com regra clara de venda e uma equipe que não cede à pressa do comprador. E vale também para o outro lado do balcão. Quando alguém compra material barato demais, sem nota e sem procedência, está financiando esse tipo de crime e colocando em risco a própria embarcação. Setor sério se protege junto", afirma Leandro "Mané" Ferrari, presidente da ACATMAR.
A ACATMAR orienta que empresas associadas comuniquem casos e tentativas à associação, para que o alerta seja repassado à rede, e que todo episódio seja levado à polícia. As imagens e informações de identificação obtidas pelas empresas devem ser entregues às autoridades, que são quem pode investigar e identificar responsáveis.


